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"Depois da ressurreição de Cristo, a mais insignificante das ações se torna “radio-ativa”, irradiando a glória de Deus" .

"Depois da ressurreição de Cristo, a mais insignificante das ações se torna “radio-ativa”, irradiando a glória de Deus" .

O segredo duma testemunha da ternura de Deus para com os pobres:

CATHERINE DE HUECK DOHERTY - ALMA DA MINHA VIDA.

 

Apresentando Catherine Doherty

Catarina de Hueck Doherty faleceu no dia 14 de Dezembro de 1985, aos oitenta e nove anos de idade. Viveu intensamente a Primeira Guerra Mundial, dela participando ativamente como enfermeira de frente avançada, apesar de contar apenas 18 anos, sem quase ter tido tempo de fazer sua “lua-de-mel” com o marido, barão Boris de Hueck, capitão e engenheiro do exército russo. Catarina foi condecorada com a Cruz de São Jorge, nunca antes concedida a uma mulher, por ter desempenhado uma missão heróica, para além dós seus deveres de enfermeira e para a qual se oferecera espontaneamente. Nessa ocasião, porém, seu cavalo a derrubou sobre a neve e a pisoteou, rompendo-lhe uma das pleuras. Isto representou sua retirada dos campos de batalha.

Com a revolução bolchevista de 1917, veio o tremendo terremoto social que sacudiu e transformou a Rússia. O sangue tingiu a neve. Sendo de família aristocrata, a jovem baronesa sabia o que a esperava... Depois de inúmeras peripécias e sofrimentos, o jovem casal conseguiu fugir para Murmansk e, daí, para a Inglaterra. Viajou para o Canadá em 1921, grávida do seu primeiro filho, que nasceu em Toronto nesse mesmo ano. Seguiram-se anos difíceis, durante os quais a baronesa virou empregada doméstica, balconista, garçonete, etc. A experiência pessoal da pobreza fê-la valorizar mais os pobres e, pouco a pouco, um pensamento foi-se esboçando em seu coração: dedicar sua vida aos pobres. Este desejo irá encontrar sua primeira modalidade e execução numa presença entre os pobres, sendo pobre ela também.

A luta pela vida levou Catarina a Nova Iorque, na esperança de conseguir um pouco mais de dinheiro para sustentar o filho e o marido — que não podia trabalhar ainda, devido aos ferimentos de guerra. Os poucos dólares que conseguia na metrópole americana iam para Toronto, porque, além do marido enfermo e do filho, ela tinha de pagar uma babá russa, também refugiada de guerra. No fim das contas, ela acaba perdendo o marido, que se envolveu sentimentalmente com outra mulher... E o sofrimento e a fome continuavam, em Nova Iorque.

Em meio a tudo isso, seu sentido de Igreja era fabuloso: sempre encontrava tempo para falar de Deus a soldados desiludidos, a prostitutas e a empregadinhas que eram exploradas, como ela própria, no seu trabalho. Descreve tudo isso numas cartas que começa a mandar ao Bispo Sheil de Chicago e que, mais tarde, serão publicadas com o título de Dear Bishop (Cartas a meu bispo).

Depois de ter chegado às bordas do suicídio, o vento mudou e ela foi “descoberta”, quando trabalhava de balconista numa loja de Nova Iorque. Convidam-na a fazer palestras sobre a revolução russa e suas experiências pessoais. Em pouco tempo, já estava percorrendo os Estados Unidos de costa a costa, sendo muito bem remunerada, porque falava com verdadeira maestria, apesar do carregado acento russo que nunca perdeu, até o fim da vida. Mas isso era bom: tornava-a autenticamente russa e as palestras ficavam mais atraentes. Depois de alguns meses, torna-se uma sócia dessa organização de conferencistas ambulantes. Já estava novamente rica! Aí é que a voz do evangelho começa a soar cada vez mais forte em seu coração: “Vai, vende o que tens e dá-lo aos pobres”! E foi o que ela fez, ao pé da letra, conservando apenas um depósito para garantir o futuro do filho, Jorge! Volta-se inteiramente para os pobres. Trabalha com os negros no Harlem e sofre horrores por parte dos brancos racistas que a chamavam de comunista. Entre esses que assim a tratavam havia padres e freiras.

Funda as famosas Casas da Amizade para atendimento de pessoas necessitadas, tanto material como espiritualmente. Apesar de ter sido a fundadora dessas casas que logo se espalharam pelos Estados Unidos, Catarina teve o grande dissabor de ver-se rejeitada pela equipe que ela mesma tinha formado. Queriam dirigir a obra em outros moldes que não os dela. Afastou-se, então, da instituição, com o coração sangrando.

Em 1943, casa-se, em segundas núpcias, com o jornalista americano Eddie Doherty e, quatro anos mais tarde, partem para o Canadá, onde lançam os fundamentos da grande obra de Catarina: Madonna House. Trata-se de uma organização de apostolado leigo. Os membros, de ambos os sexos, vivem em comunidade e fazem os três votos religiosos de pobreza, castidade e obediência. A ênfase da fundação é posta na vida de oração e no trabalho, tanto para a própria sustentação como em benefício dos outros, sobretudo dos pobres.

(…) Casada duas vezes, profundamente feminina, deixou que sua feminilidade desabrochasse plenamente em sua vida de oração e em sua espiritualidade falada e escrita. Eis por que explora de mil maneiras, sobretudo no fim da sua vida, a frase candente do Cântico dos Cânticos: "Que o meu Amado me beije com o ósculo de sua boca" (1,1).

Pé. Héber Salvador de Lima, S.J. (o Tradutor)

 

SEGURA NA MÃO DE DEUS

Quando penso em oração, a frase que logo me vem à mente é sempre esta: segura na mão de Deus e fale com ele, em qualquer tempo, a qualquer hora.

Não existem um tempo próprio e um tempo impróprio para rezar. O evangelho nos manda rezar continuamente, “sem parar” (Lc 18,1). As pessoas, às vezes, admiram-se e perguntam como isto pode ser possível. É simples. Comece por segurar a grande mão paterna de Deus. Algumas vezes você falará com ele, mas não é preciso fazê-lo sempre; o importante é não largar aquela mão! Porque enquanto a segura, está unido a ele o tempo todo.

Esta é a visão fundamental que se deve ter da oração.

Há quem pense que precisa pôr de lado, no seu dia-a-dia, um tempo determinado para rezar. “Preciso de duas ou três horas”, disse-me alguém. Com tanta coisa para fazer ao seu redor, como seria isso possível para uma pobre mãe de família, para um homem de negócios, para o diretor de um colégio, para o bispo de uma grande diocese? Rezar não é um tempo que se põe de lado; é um tempo que se põe dentro! Sim, dentro das atividades diárias, dentro do corre-corre, dentro do tráfego de uma grande cidade, sobretudo dentro do trabalho que é feito a serviço dos outros. Só dessa maneira podemos rezar sem parar: com a mente em Deus e com a reta intenção das nossas ações oferecidas a ele, para que venha a nós o seu Reino. Um trabalho assim realizado é um trabalho que se transforma em hóstia: eleva-se e consagra-se! Transforma-se em oração. E tudo isso pode ser oferecido pelo bem dos outros, unindo-nos, desta forma admirável e fácil, a todo o mundo, através do Corpo místico de Cristo e da comunhão dos santos.

“Creio na comunhão dos santos”, dizemos todos os dias e, talvez, pouca gente saiba o que é esta comunhão dos santos! Pois é isto que acabo de dizer: fazer nossas ações de cada hora enquanto seguramos a mão de Deus e pensamos no bem dos outros! Obviamente, há momentos e horas, em nossa vida, especificamente designados para a oração. Entre essas horas destaca-se a hora da missa que é, para os católicos, a principal oração, a oração maior, a oração “por excelência”. Aí, mais do que em qualquer outro tempo, você se encontra com o Senhor que vem a você com gosto e alegria. Já procurou sentir, alguma vez, a alegria que Jesus sente quando vem ao seu coração? Tente pensar na felicidade que ele experimenta ao ver que você está lá! Imagine alguém dando uma festa e circulando por entre os diversos convidados, soltando gritinhos de alegria: “Que bom! Você veio!” Há pessoas que dizem: “Posso rezar em qualquer lugar; não preciso ir à igreja nem aos domingos!”! Que pena! Não entendem nada do sentido e da importância da missa, que é o nosso encontro especial com Deus e com o seu povo! A missa não é propriamente para ser rezada; ela é para ser vivenciada, experimentada, degustada.

Envolve todo o nosso ser de maneira inefável e absoluta. De uma certa maneira, muito bonita e muito profunda, sobretudo muito real, você se transforma em missa: em ofertório, em consagração e em comunhão. Já pensou nisso alguma vez? Entre uma missa e outra, a gente pode passar o tempo recordando os bons momentos da convivência com Deus, da mesma forma como dois namorados, depois que se separam, rememoram seus momentos de amor e de ternura.

Há também a liturgia das horas, de manhã, ao meio-dia e à tarde. Aí somos alimentados pelas orações mais lindas que existem: os salmos de Davi. Fica também sempre aberta a possibilidade de uns momentos diante do Santíssimo Sacramento, esta adorável e amorosa presença de Cristo entre nós. As palavras de Cristo “entra no teu quarto e fecha a porta” (Mt 6,6) são também uma ótima sugestão para quem, vez ou outra, deseja um pouco de paz na união com Deus. É uma maneira fácil de transformar o próprio quarto numa espécie de poustinia (Poustinia é uma palavra russa que significa deserto, solidão).

Em tudo isso, porém, é preciso que fique bem claro que a verdadeira oração é, mais que tudo, esse diálogo e comunicação entre Deus e nós; essa conversa entre duas pessoas que se amam e que não exige tempo nem lugar especial. Muitas pessoas se preocupam com o “modo” dessa comunicação...

Quem ama não pensa em maneiras especiais de expressão. Deus nos dá sua atenção infinita sem olhar para o jeito com que nos dirigimos a ele. E é sempre bom observar que ele aprecia, de maneira muito carinhosa, o nosso silêncio diante dele; um silêncio de escuta atenciosa e ávida.

Deus quer que a nossa oração seja simples. Vejam, por exemplo, o recado de Marta para Jesus, a respeito da doença de seu irmão Lázaro: “Senhor, aquele que amas está doente!” (Jo 11,3). Quanta fé, quanto amor e quanta confiança nestas poucas palavras! Da mesma forma agiu Maria, nas bodas de Cana, quando o vinho faltou: “Eles não têm mais vinho” (Jo 2,3). Ela sabia o Filho que tinha. Não perdeu tempo em longos discursos e rodeios verbais.

A exposição simples e humilde das nossas necessidades é o que espera de nós quem está disposto a ajudar-nos. Acho que Deus deve ficar cansado do interminável palavreado com que muitas pessoas se dirigem a ele.

A oração torna-se mais bela quando unida ao amor e à caridade. Suponha, por exemplo, que você está viajando e, de repente, vê, pela janela do ônibus, um aleijado, um deficiente físico arrastando-se com dificuldade… É o momento de se voltar para Deus numa prece: “Senhor, ajudai, de alguma forma, aquele pobre aleijado”. Dessa maneira, a oração nos põe em contato com inúmeras pessoas e suas múltiplas necessidades, físicas ou morais. E aqui atingimos outro ponto importante: a oração é tanto mais bela e mais eficaz quanto mais se esquece de si para concentrar-se nas necessidades dos outros, sobretudo dos que sofrem. Deixe que Deus pense nas suas necessidades e nos seus problemas e concentre-se nos dos outros. Acho horrível a oração que eu chamaria de oração eu-me-mim: eu quero... dá-me... para mim! Como eu gostaria de pegar na mão de cada um de vocês e dizer-lhes: “Venha comigo. Vamos todos segurar a mão do Senhor e rezar a ele pelos outros na simplicidade e no amor”. É pena que poucas pessoas pensem nessa modalidade de oração. A maioria de nós não está acostumada a jogar sua oração no próprio fluxo da vida. Estamos mais acostumados a tirar um tempo especial para rezar, em vez de rezar o tempo todo. O tempo em que se reza não se “tira” da vida, e vida feita oração não precisa de tempo. Ela é a eternidade já no meio de nós, com a mão de Deus pendendo do céu e nós segurando-a!

 

 

REZAR É TRANSFORMAR-SE EM ORAÇÃO

Há pessoas que me perguntam como é que eu rezo, e não é fácil responder a esse tipo de pergunta. Faço o melhor que posso. Geralmente recorro às palavras de Pé. Edward Farrel: “A oração é uma fome”. Procuro então dizer que, simplesmente, sinto fome de Deus e, deste modo, a oração sai espontânea. O mesmo acontece com todos os meus irmãos e irmãs de Madonna House.

Acho que me apaixonei por Deus quando tinha seis anos, mesmo que isso possa parecer exagerado para alguns... Na verdade, não existe exagero algum. Deus estava perto de mim como uma criança está perto de outra criança. Assim, bem natural. Então a gente brincava um com o outro. Como eu tinha uma imaginação muito viva, imaginava todos os tipos e variedades de brinquedos com Deus. Até bola nós jogávamos juntos. Chegava mesmo a querer que ele participasse das minhas refeições. Só pouco a pouco percebi que isso não podia acontecer.

Dessa oração vivencial e infantil, fui passando, quase penosamente, para a oração vocal. Mas também essa ficou para trás. Quando? Eu mesma não sei dizer. Foi algo assim repentino. E me vi numa terra nova: a meditação.

Sempre gostei de comparar essa meditação com um baile a que se vai e onde a gente encontra um rapaz maravilhoso que exerce forte atração sobre nós. Você volta para casa “relembrando”... saboreando cada palavra que ele disse. No caso, o meu “rapaz” era Jesus Cristo e eu o ouvia avidamente no evangelho. Depois ficava “relembrando”, saboreando cada palavra que ele me tinha dito. O evangelho tornou-se minha oração definitiva, essencial e a mais querida.

Mas também essa Terra Prometida da Meditação foi um “país” de transição. Esse tipo de oração acabou por cair-me dos ombros, como roupa velha e, de repente, eu me vi vestida com a bela roupagem da contemplação. Minha vida ficou diferente. Era como se o Senhor, em pessoa, estivesse a meu lado, explicando-me as coisas divinas. Ele próprio me esclarecia essa ou aquela passagem da Bíblia. Eram dias em que eu me sentia “perdida em Deus”.

Aonde se vai quando se está “perdido em Deus”? A resposta a essa pergunta é um tanto estranha e difícil de entender. Não se pode compreendê-la com a mente; somente com o coração. O que me aconteceu foi que eu me transformei em oração.

Uma pessoa que se identifica com a oração é alguém profundamente apaixonado pela Palavra, pelo Verbo de Deus. Portanto, profundamente apaixonado por uma pessoa: Deus. Nesse estágio, dá-se um fenômeno curioso: sua mente mergulha no seu coração. É o tempo mais feliz da nossa vida. Claro que continuamos usando nossa mente para as necessidades práticas da vida diária: a limpeza da casa e as demais providências que o dever de cada hora reclama de nós. O fato de você “se tornar oração” em nada interfere na sua vida normal; pelo contrário, quem se transforma em oração torna-se mais meticuloso e exato no cumprimento de cada dever, na realização de cada ação externa, porque tem a convicção de estar fazendo cada coisa por amor de Deus e como expressão de sua vontade.

Aquela parte do seu cérebro que analisa, estuda e disseca motivos e razões em assuntos relativos à fé, essa parte passa para dentro do coração. É isso que significa “transformar-se em oração”.

Oração é sofrimento; é com-paixão. De repente, todo o sofrimento da humanidade encontra o caminho para dentro de você. Aí é que começa a agonia, igual à de Cristo no horto. Se você está ouvindo o telejornal, a notícia dolorosa o atinge como um projétil que sai do vídeo: você se torna a pessoa que morreu ou que perdeu um filho no assalto dos terroristas; você é a moça que foi seqüestrada, ou a criança, ou sua mãe e seu pai! Você, de repente, está morrendo de câncer, está sendo atropelado. A dor do mundo todo cai sobre nós. Em momentos assim, a gente não reza: simplesmente partilha todo esse sofrimento. Eis o que significa ser oração.

Mas pode acontecer também que o telejornal lhe traga uma notícia alegre, de qualquer parte do mundo, longe ou perto. Então você também entra na festa e participa da alegria que se torna sua. E, de repente, olhe você dançando no meio da noite! E o melhor é que pode até chegar a sentir que Deus está dançando com você! Sim, quando tais coisas acontecem, você está mesmo se transformando em oração.

Haverá momentos em que você se sentirá vazio, e uma pergunta soará dentro de você: “Afinal, que estou fazendo aqui?”... Experimentará a sensação da inutilidade total de sua vida, cheia só de tentações, de dúvidas que o assediam como línguas de fogo... Pois é exatamente em momentos assim que você se transforma em oração para todos aqueles que hesitam na caminhada e duvidam na fé.

Por vezes você mergulhará nas profundezas do inferno... Um inferno de fabricação humana, ateu... Mas é uma descida livre e motivada pelo amor, em benefício de todos aqueles que não crêem. Sua identificação com eles o transforma em oração.

A oração é um movimento, um impulso do coração.

Durante três quartas partes de sua vida talvez você tenha a impressão de que não consegue rezar. Naturalmente não consegue, de fato, rezar do modo como deseja! Porque deseja imitar os anjos do céu que passam a eternidade inteira, ante a Face Eterna de Deus, repetindo sempre: “Glória, Glória, Glória!” Só os anjos são capazes de realizar essa façanha, nós não! Nem sempre a oração se faz da maneira como pensamos que deveria ser feita! Rezar é estar constantemente na presença de Deus.

Nós somos sempre conduzidos para essa Presença inefável. A experiência de um retiro nos leva a ela mais depressa. E o bom desses retiros e dessas solidões consagradas à oração é que você descobre que Deus estava lá dentro de você o tempo todo. Você é que não o via! Agora, se você sabe que ele está lá e, mesmo assim, não consegue rezar, não se preocupe. Ele não se incomoda com isso e terá prazer em ficar sentado no íntimo do seu coração. Ele rezará em seu lugar! (Rm 8,26).

Depois que você se transforma em oração, está preparado para identificar-se com Cristo, conforme a expressão de são Paulo. A força que torna possível uma tal identificação não pode nunca vir de nós mesmos, mas unicamente de Deus, que a concede somente àqueles que vestem o evangelho com sua vida e com suas boas ações, isto é, àqueles que transformam o evangelho em vida: sua própria vida palpitando no mundo e, assim fazendo, transformam-se em oração diante de Deus.

Aqui tocamos a fímbria de um mistério mais insondável do que qualquer coisa que possamos entender. É o mistério da encarnação. E o mais paradoxal deste assunto é que se trata do mistério do ordinário, do comum, do óbvio, do que está acontecendo todos os dias bem à nossa frente: o mistério do amor! Que é mais comum e natural do que o nascimento de uma criança, nalgum recanto da Palestina, mesmo que seja numa gruta? Afinal, mesmo naquele tempo, havia certamente centenas de pessoas que viviam em grutas e cavernas, dentro ou fora da Palestina! Era também mais do que natural que José e Maria procurassem uma gruta, ao notar que as pensões estavam lotadas. Fizeram simplesmente o óbvio! Mas tente aprofundar esse óbvio e verá como atinge logo o âmago do mistério.

A gente pode acompanhar a encarnação de Cristo passo a passo pela meditação. Verificamos, então, que caminhamos lado a lado, com o “humano” no seu caminho batido de todos os dias e de todas as horas. Entretanto, quanto mais persistimos nesse “trilho batido” do comum e do óbvio, mais percebemos a presença envolvente do mistério: o Mistério do Amor Infinito. Cristo tomou sobre si a nossa vida com tudo o que ela tem de ordinário e, ao mesmo tempo, com todas as suas dimensões interiores, profundas, nebulosas, misteriosas. Ele assumiu também o nosso mistério de aspirações sobrenaturais enjauladas na carne cheia de desejos e de instintos. O homem já era um ser difícil de entender-se por ser imagem de Deus na carne perecível; mas, com a vinda de Cristo, o mistério aumentou porque cada passo dessa carne perecível, cada passo desse ser precário que somos nós, foi, de certo modo, divinizado pela encarnação de Jesus Cristo.

É esse duplo aspecto do mistério de Deus que se faz homem e da humanidade participando do divino que refulge na oração. Diríamos que esses dois mistérios se encontram na prece: a oração do Filho para o Pai e a nossa oração dirigida ao nosso Irmão. Nessa altura das considerações, o mistério de “ser oração” se revela mais plenamente. Pela sua encarnação, Deus-feito-homem pode rezar a Deus Pai; pela nossa participação na divindade de Cristo (homem-Deus), através desse mesmo Cristo, nós também podemos chegar ao Pai. Dessa forma, Deus e o homem se unem e se entrelaçam na oração; o divino e o humano se abraçam numa só oração que é a de Jesus Cristo. E é nele que nós nos transformamos em oração.

Qual a chave para abrir esse estupendo mistério que somos todos e cada um de nós? É a aceitação do ordinário, do comum e do óbvio das ações de cada dia. Depois da ressurreição de Cristo, a mais insignificante das ações se torna “radio-ativa”, irradiando a glória de Deus.

Olhe, por exemplo, os sacramentos. Tome o batismo, essa cerimônia tão simples e tão ordinária na vida cristã de cada dia... Que há no batismo? Uma criança, água, um pouco de óleo, um sacerdote, pais e padrinhos... Tudo muito humano, muito visível, muito comum, óbvio e tangível. Entretanto, quem jamais conseguiu trazer à tona a profunda e misteriosa realidade divina que se esconde nesses "sinais sensíveis" e eficazes, através dos quais nos tornamos filhos de Deus? Quem já conseguiu compreender a fabulosa frase de são Paulo segundo a qual todos somos batizados na morte e na Ressurreição de Cristo? Que coisa é a confirmação ou crisma? É a bela realidade de ser possuídos pelo Espírito de Deus.

Entramos nessa realidade como jovens filhos de Deus já batizados. Cristo prometeu que mandaria o Espírito Santo a seus apóstolos, como uma espécie de força nova e uma nova ciência que lhes ensinaria toda a verdade. E vejam a transformação que aconteceu. A vida dos apóstolos se divide em duas fases: antes da confirmação do Pentecostes e depois! De medrosos passaram a ser fortes, desafiando as autoridades humanas que lhes proibiam falar sobre Jesus Cristo! Uma tal transformação não acontece apenas com os apóstolos. Ela tem lugar também na sua e na minha vida, cristão de hoje. Esta confirmação aprofunda em nós o mistério da forca de Deus na fraqueza humana, desde que atinja a nossa vida inteira em todos os seus aspectos e realidades, sobretudo as mais comuns do nosso dia-a-dia.

Somente a fé nos possibilita descobrir a dimensão infinita da nossa vida comum ou, em outras palavras, a bela verticalidade latente no horizontal do óbvio e do ordinário de cada minuto. Somente a fé, unida, naturalmente, à lei do amor de Deus que nos ensina a aceitar a vida como expressão da sua vontade.

E não basta uma aceitação meramente mental nem verbal de tudo isto. Essa fé e esse amor devem passar por uma encarnação. Temos de vesti-los com a nossa carne e apregoá-los com a nossa vida. Só assim haverá em nós uma nova encarnação do Verbo e nos transformaremos em oração viva.

Porque a oração nasce no momento em que se encontra o mistério de Deus com o mistério do homem. Esse poder e essa transformação nos são dados para que nos tornemos mais semelhantes a Cristo e, conseqüentemente, mais caminho para o Pai. Esse poder e essa glória nos são concedidos para que compreendamos sempre melhor que somos irmãos e irmãs em Jesus Cristo, enviados todos para fazer a vontade do Pai e levar todas as pessoas a ele! Participamos da força e beleza deste mistério para poder dizer também como são Paulo: “Já não sou eu quem vive; é Cristo que vive em mim”. Sim, eis o nosso poder! Eis a nossa glória! Eis o nosso mistério!

 

Do livro Alma da Minha Vida, Edições Loyola, São Paulo, SP, Brasil 1987. Tradução: Héber Salvador de Lima, S.J. Título original: Soul of My Soul Catherine de Hueck Doherty. Ave Maria Press, Notre Dame, Indiana, USA 1985

 

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