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FP.pt 6/2013 (1)

Redescobrir o Rosário

Fr. Carlos A. Azpiroz Costa, O.P.

 

Queridos irmãos e irmãs,

(…) Iremos começar uma novena de anos que culminará com o jubileu de 2016, pelo 800º aniversário da confirmação da Ordem dos Pregadores pelo Papa. (…) Desejo convidar todas as entidades da Ordem, comunidades e pessoas a ela pertencentes, a iniciar um longo processo de renovação por intermédio da reflexão, decisão e acção em relação a tudo o que se relaciona com a nossa vida de pregadores do Evangelho.

Para dar o mote a este primeiro ano, proponho que comecemos pela renovação da nossa vida de pregadores através da redescoberta do Rosário, como meio de contemplação e instrumento para a pregação profética. Em certa medida, o Rosário, como contribuição especificamente dominicana para a vida da Igreja, deixou de estar nas nossas mãos. No entanto, e ao mesmo tempo, ele perdura cheio de vida entre nós. Ofereço-lhes com esta carta uma modesta meditação sobre o Rosário, partindo do ponto de vista da memória, da reflexão teológica e da religiosidade popular.

 

1. Memória

Permitam-me invocar as minhas próprias memórias que espero também despertem entre vós algumas das vossas. As recordações são importantes para forjar a nossa identidade, dar corpo ás nossas ideias e para nos permitir reviver e re-interpretar eventos chave da nossa vida.

A minha primeira recordação do Rosário remonta aos meus primeiros anos no colégio Champagnat dos irmãos Maristas em Buenos Aires quanto tive o meu primeiro terço nas mãos. Os irmãos transmitiam-nos um verdadeiro amor a Maria como mãe que nos ama incondicionalmente e que intercede pelo seus amados filhos e filhas, a Maria do Evangelho de São João. Claro que celebrávamos também o mês de Maria com procissões, terços e litanias. Desde jovem andei com uma «dezena» do terço no bolso das calças. A repetição do Pai-Nosso, da Ave-Maria e do Glória permitiram que esta forma de oração se entranhasse profundamente na minha vida.

Hoje em dia gosto de modo especial de o rezar enquanto caminho. Acompanha-me em diferentes paisagens, seja quando estou de viagem ou na cidade. É a «contemplação da rua» de que fr. Vincent de Couesnongle nos falou uma vez. Começa por marcar o ritmo dos meus passos, permitindo-me deter um mundo sempre em movimento. Permite-me dar alma, vida e emoção à cidade ou lugar por onde passo; às reuniões que me esperam com as suas alegrias e esperanças, luzes e sombras.

Recentemente, durante um dos nossos retiros, o Conselho Geral meditava sobre o mistério da morte. Um dos frades descrevia como os irmãos agonizantes quase sempre pedem o seu terço, ainda que seja apenas para o agarrar. Lembro-me que no filme «Baptismo de Sangue», que conta a história dos nossos irmãos frades brasileiros torturados durante os anos 70 sob a ditadura de Medici, Frei Tito de Alencar, enquanto o arrastavam para fora do convento, gritava ao seu irmão que fosse buscar o seu Terço. Que significado teria isso para ele naquele momento de terror?

Quais são as tuas recordações do Rosário? Que significado poderão ter tais recordações para ti? Para mim? O que terá o nosso estudo e reflexão teológica a dizer acerca delas?

 

2. Reflexão Teológica

Eu creio que estas recordações nos falam da proximidade de Deus. O mistério da Incarnação, não é apenas o nascimento do Senhor num passado milenar, mas acerca da incarnação da Graça, do nascimento de Deus, na nossa vida quotidiana. Jesus vive e o seu Espírito continua a curar-nos, a ensinar-nos, a perdoar-nos, a consolar-nos e a desafiar-nos. Isto não é uma vã abstracção, mas pelo contrário, é algo que se torna visível nas e por intermédio das imagens associadas aos mistérios do Rosário. A consciência da incarnação aumenta à medida que se permite a estas imagens misturarem-se com os assuntos da nossa vida diária. É assim que o Rosário é profundamente incarnador, bíblico, Cristo-cêntrico e contemporâneo.

Obviamente o Rosário é Mariano. Sejamos claros no que significa esta asserção. Em Maria une-se o divino e o humano, a criatura une-se ao Criador. Em Maria reconhecemos a nossa identidade e o nosso destino. Vemos a santa comunhão de «Deus con-nosco» e de «Deus entre-nós». Reconhecemos que o nosso Deus é um Deus-para-nós – redentor e salvador, santificador e glorificador.

Com efeito, Maria é figura central na nossa vida de fé. Embora a consideremos Filha do Pai, Mãe do Filho e Esposa do Espírito, devemos também considerá-la como uma crente num vale de sombras e alguém com esperança quando confrontada com uma situação desesperada. Podemos vê-la como protectora das grávidas que dão à luz na pobreza, patrona dos que imigram para terras estrangeiras para sobreviver e como a que faz vigílias quando o filho é preso, torturado e assassinado. E no entanto, através de tudo isto somos testemunhas do triunfo da sua fé, esperança e caridade. Já o Papa João Paulo II nos convidava a contemplar o rosto de Cristo através dos olhos de Maria.

Que pode tal significar para nós próprios? Como Mestre da Ordem eu sou um missionário que dá alento aos meus irmãos e irmãs espalhados pelo mundo, escutando as suas histórias e as suas realidades. Eu recordo os rostos das famílias cristãs gravemente feridas em Bahawalpure (Paquistão 2001), dos vizinhos das nossas irmãs nos bairros mais pobres de Kinshasa (Congo), das crianças que nos seguiam nos Camarões, na Praça da Guerra Civil em Campodos (Tibu), Colômbia, de famílias a pescar nas suas canoas ao largo de Gizo, nas ilhas Salomão ou no rio Urubamba na amazónia peruana. Estas imagens inserem-se nos mistérios e assim o Rosário torna-se na minha intercessão, juntamente com a de Maria, colocando os sofredores aos pés de Jesus.

O nosso mundo parece estar sempre dividido pelas guerras. Na minha mente figura em primeiro lugar o Iraque arrasado pela guerra e o incessante banho de sangue entre israelitas e palestinianos. O século vinte foi marcado pelas guerras e pela devastação em todo o planeta. Durante esses piores momentos as pessoas viraram-se para a oração do Rosário pedindo paz. Com efeito, não foi esse o tom das devoções de Fátima para a conversão da Rússia e não é Maria invocada como Rainha da Paz? Ao mesmo tempo, não menosprezemos as guerras frias que se dão dentro das nossas famílias, comunidades, e no interior do nosso coração. Não poderia o Rosário trazer-nos a paz? Este ano celebraremos o 50º aniversário da atribuição do Prémio Nobel da Paz a Frei Dominique Pire, nosso irmão belga, por ter estabelecido «ilhas de paz». Quem sabe a sua inspiração para esse projecto não terá nascido a partir da reflexão enquanto rezava o Rosário pela paz.

As palavras das orações que acompanham a reflexão falam-nos do Reino de Deus, do pão quotidiano, da libertação do mal, do fruto do ventre, dos pecadores e da hora da morte. O Reino de Deus é justiça e paz. A vontade de Deus está em desacordo com a opressão. O pão é para ser partilhado. E o perdão dá-se. O fruto bendito do ventre materno é sagrado. Sim, o Rosário - as palavras bíblicas e a nossa meditação vivida - tornam-no numa oração tão profética quanto contemplativa, que tanto anuncia como denuncia, uma oração que igualmente consola, transforma. As Palavras que dão graças pela Trindade convidam-nos a viver em comunidade, sem subjugação, onde cada um está plenamente aberto e disponível para o outro. Sim, «a vontade Deus» realizar-se-á e por isso não poderemos jamais perder a esperança. A nossa pregação está plena de esperança pois «o que existia desde o principio, o que escutamos com os nossos ouvidos, o que vimos com os nossos olhos; o que contemplamos e tocamos com as nossas mãos; a Palavra que é vida, tal é a nossa razão de ser» (1 João 1).Vivendo em companhia de Jesus, como fez Maria, convertemo-nos nesse discípulo e apóstolo que o Mundo precisa e Deus deseja.

 

3. A prática da religiosidade popular

Depois do Vaticano II, tendíamos a menosprezar a importância da «religiosidade popular». De forma acertada, demos enfoque ao estudo bíblico e a uma maior participação litúrgica. Ao fazê-lo, também minimizamos aquelas formas de expressão que permitiam uma grande expressão de sentimentos religiosos, por exemplo, a exposição do Santíssimo, procissões, peregrinações a santuários, devoções rosaristas, etc. Agora, depois de quarenta anos (40) de experiência constatamos que as pessoas, mais velhos e mais jovens, necessitam destas expressões para «que reavives o carisma de Deus que está em ti». (2 Timóteo 1,6).

Esta religiosidade popular ainda perdura com firmeza nos santuários marianos em todo o mundo. Este ano celebramos os 150 anos de Lurdes (França), e os 90 anos de Fátima (Portugal), para mencionar apenas os santuários que atraem literalmente milhões de pessoas por ano. Poderíamos referir também Guadalupe (México), Czestochowa (Polónia), Knock (Irlanda), Chiquinquirá (Colômbia), Coromoto (Venezuela), Luján (Argentina), Manaoja (Filipinas), e muitos mais. Quase todos os países do mundo possuem um santuário nacional dedicado a Nossa Senhora, que une todos os fiéis, de longe e de perto, num maternal abraço..

Ainda se vêem nos automóveis medalhas de São Cristóvão e terços pendurados nos retrovisores, pequenos altares caseiros ou estátuas em jardins. Temos os rituais das cinzas no início da Quaresma e os ramos no princípio da Semana Santa que nos informam dos desejos e sentimentos religiosos do povo. Estes ritos introduzem uma certa ordem e estabilidade, um certo ritmo e dimensão encarnadora nas vidas das pessoas comuns, permitindo-lhes viver mais profundamente os eventos religiosos. Conseguiremos nós Dominicanos recuperar esta religiosidade popular através de algo que nos é próprio: o Rosário?

Tomei consciência de que o Rosário é uma oração universalmente estimada. Tanto em Itália, como na Ucrânia, México ou Estados Unidos, Filipinas, Vietname, Quénia ou Nigéria, o Rosário é rezado e amado. Ceio que uma razão para tal aconteça seja a sua dimensão de oração tangível. É algo quase cada católico tem. Dá-se como presente. É um ritual que se celebra tanto em privado como em comum. É algo que se pode tocar, segurar e apertar em momentos difíceis da nossa vida; é como dar a mão à Virgem. O Rosário tanto é colocado nas nossas mãos na «hora da nossa morte» como no dia do nosso enterro. As suas orações são resumos da nossa fé. Aprendê-las é como aprender a falar; são o princípio de uma vida de oração; e sim, também o final da nossa vida de oração – «faça-se a tua vontade» «agora e na hora da nossa morte». Recebemos um terço na nossa juventude, um rosário quando tomamos o hábito e um rosário acompanha-nos no nosso enterro.

 

Conclusão

Partilhei convosco algumas das minhas reflexões, espero que simultaneamente sensatas e profundas; talvez mais uma meditação e reflexão do coração do que qualquer outra coisa. No Capítulo Geral de Bogotá tive privilégio de assignar o Frei Louis-Marie Ariño-Durand da Província de Tolouse como Promotor do Rosário. Ele tem desenvolvido um muito completo site na internet que poderá ser de grande ajuda para todos durante o próximo ano. Em contrapartida, peço que cooperem no seu desenvolvimento respondendo às solicitações de Fr. Louis.-Marie. Juntos poderemos construir um site na internet para seja um benefício para toda a Igreja.

No princípio desta novena de anos de preparação para a comemoração do aniversário de 1216, conseguiremos que o próximo ano, que vai da Epifania de 2008 à de 2009, seja um ano de redescoberta do Rosário na nossa vida pessoal, na vida comunitária e na renovação da nossa pregação, tanto profética como contemplativa? Conseguiremos contribuir para o futuro da religiosidade popular das nossas gentes desenvolvendo a renovação das novenas rosaristas, das missões, das procissões, dos santuários? Conseguiremos contemplar o nosso Mestre com os olhos do discípulo perfeito? Conseguiremos contemplar o Filho através dos olhos da sua Mãe? Conseguiremos contemplar o nosso mundo com a sua abissal necessidade de transformação pelo Evangelho? Conseguiremos chegar a viver e a pregar apaixonados pela criatividade de Deus Pai e de Maria, Mãe do Filho amado? (…)

fr. Carlos A. Azpiroz Costa, O.P.

Mestre da Ordem dos Pregadores - Carta sobre o Rosário

Roma, 1 de Janeiro de 2008

 

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