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FP.pt 2/2013

Ditos e nao ditos na vida religiosa

Pe. Alfredo J. Gonçalves

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A comunicação humana é complexa, tortuosa e multifacetada. Não é diferente no interior da Vida Religiosa Consagrada (VRC). Também aqui os encontros e desencontros se mesclam, se confundem e se alternam. O fato de assumir os votos de pobreza, castidade e obediência não imuniza os religiosos de tensões e conflitos nos embates da vida comunitária. Afinal de contas, como bem lembra Enzo Bianchi, “não somos melhores”, em sua reflexão sobre a vida religiosa na Igreja entre os homens, especialmente a partir de uma visão crítica dos documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II (BIANCHI, Enzo, Non siamo migliori, la vita religiosa nella chiesa, tra gli uomini, Ed. Qiqajon, Comunità di Base, Magnano – Bi, 2002).

Entraves da linguagem

A linguagem é a ponte para as relações interpessoais, familiares, comunitárias, sociopolíticas e culturais, como também para a comunicação dentro das comunidades religiosas consagradas. A linguagem, porém, tampouco é unívoca e uniformizada, mas dinâmica e plural, polifônica e polissêmica. Polifônica, porque são diversas as formas de linguagem que interagem nos encontros e reencontros humanos, entrelaçando-se, entendendo-se ou entrechocando-se. Polissêmica, na medida em que signos e símbolos carregam distintos significados, de acordo com as mais variadas circunstâncias, tempos e lugares.

Devido à tamanha complexidade, são frequentes os curto-circuitos entre pessoas, famílias, grupos, povos e nações. Multiplicam-se os nós, fáceis de atar, mas difíceis de desatar. Verdadeiros labirintos onde as vozes e apelos, se ouvidas, não são compreendidas. E se compreendidas, nem sempre obtêm resposta. Tais curto-circuitos podem apresentar-se como ruídos ou como silêncios. Aliás, por vezes o silêncio é tão pesado, constrangedor e estridente quanto o barulho mais ensurdecedor. E este, por sua vez, facilmente provoca o mutismo obstinado, isto é, a recusa a toda e qualquer comunicação, o isolamento, a autodefesa. Não é difícil encontrar religiosos isolados no seu mundo ou no seu projeto pessoal (para não dizer personalístico). Incapazes de sentar à mesa para planejar, avaliar e programar em conjunto.

Os curto-circuitos também ocorrem pela multiplicidade e variedade de formas de se comunicar. Aqui a palavra, falada ou escrita, nem sempre ocupa o primeiro lugar. Pelo contrário, pode representar um campo bem reduzido e estreito na ampla constelação da comunicação humana. Outras formas de interação podem ser (e em geral o são) bem mais expressivas: olhares, sorrisos, caretas, abraços, apertos de mão, gestos, toques, riso e lágrima, música, dança, teatro, tipo de postura, indumentária, simbologia, forma de comportamento... Além dos silêncios ou mutismos! No convívio diário da vida VRC, o menor movimento, olhar ou gesto valem mais que uma palavra ou a recusa de pronunciá-la.

Aí temos toda uma coreografia da comunicação que lembra a célebre Teoria do Agir Comunicacional, obra prima de Jürgen Habermas. Sua riqueza e variação tornam extremamente dinâmico o contato humano. Dinâmico, criativo e pluridimensional. Não raro, a verbalização passa a ser mero acessório, quando não verdadeiro desmentido ao gesto mudo, o qual, por si só, diz mais que mil palavras, frases ou discursos. Até porque, com demasiada frequência, as pessoas utilizam as palavras não tanto para comunicar o que pensam, e sim para esconder e dissimular. As palavras tanto podem servir de ponte quanto de obstáculo a um diálogo interpessoal ou comunitário. Transmitem uma mensagem, mas também a podem truncar. Palavra nem sempre é sinônimo de relação, ao contrário, por vezes servem para interrompê-la.

Entretanto, faz-se necessário distinguir a Palavra (no singular) e as palavras (no plural). Estas últimas, quanto multiplicadas à exaustão viram palavrório vazio. Podem efetivamente conduzir à Palavra, mas em muitas ocasiões não passam de dispersão e tagarelice. A Palavra é rica, povoada, dinâmica, criativa e libertadora; já as palavras, quando soltas aos quatro ventos, costumam ser pobres e ocas de sentido. Não é raro encontrar pessoas que, não sabendo o que dizer, põem-se a falar. Quem sabe exatamente o que transmitir, o faz com brevidade e concisão; quem não sabe, precisa antes convencer-se a si próprio. O exemplo de uma lata rolando no asfalto é bem ilustrativo e este respeito: quanto mais vazia ela estiver, maior será o ruído.

Ditos & não ditos na Vida Religiosa

Nesse imenso e diversificado quadro das linguagens (aqui também no plural), importa ainda ater-se aos ditos e aos não ditos. Aqui entendemos por “ditos” as mensagens minimamente necessárias para uma convivência fraterna e amiga, aquilo que é imprescindível no cotidiano das relações humanas. Os “não ditos”, por sua vez, expressam muda e obstinadamente a recusa em comunicar-se, a teimosia de um silêncio obsessivo. Os primeiros podem às vezes ser conflituosos e agressivos, mas o próprio fato de dizer o que se pensa abre a possibilidade para o diálogo.

Diálogo que pode ser tenso, sem dúvida, mas será sempre preferível ao mutismo. Nesta perspectiva, quem fala se salva ou amplia o espaço para o entendimento. Quem cala pode asfixiar-se no próprio veneno ou trancado na própria gaiola. Não poucas vezes, a palavra ou o grito constituem uma tábua de salvação para quem está se afogando, enquanto o silêncio torvo e obstinado, o mutismo, impede o socorro e, a largo prazo, pavimenta o caminho da própria morte. No processo de formação para a VRC, toma importância vital o diálogo e o acompanhamento pessoal e espiritual. Verbalizar sentimentos e fatos do passado é uma forma de exorcizar os medos e sombras que os acompanham, como bem lembra a psicologia e a psicoterapia.

Além disso, os “não ditos” costumam engendrar fantasmas falsos e perigosos. Quando as coisas não são transparentes num casal ou numa família, num grupo ou comunidade, a escuridão toma conta dos canais normais da relação, interrompe a comunicação livre, luminosa e sadia. Surgem os labirintos tortuosos e impenetráveis. Esse ambiente escuro torna-se terreno fértil para a criação dos mais variados espectros. Rompe-se a presença clara e aberta, bem como o diálogo franco e saudável. O que dá margem ao cultivo mórbido e doentio da imaginação. Esta, quando se encontra nas trevas, tende a engendrar objetos, vozes e personagens estranhos. Facilmente os anjos dão lugar a demônios desconhecidos e temerosos. Tudo o que não se explica e não se verbaliza, cedo ou tarde abre espaço para as mais variadas formas de interpretação. Somente a luz desfaz as sombras.

O mais grave é que, na sombra, cada um cria seus próprios fantasmas. Eles nunca são iguais e jamais se comunicam entre si. Agem de forma isolada, sorrateira e perniciosa no interior do coração e da alma. Onde não há franca luminosidade, cresce a escuridão, proliferam os medos e as hipóteses mais absurdas. Até o ponto em que toda a casa/família/comunidade permanece nas trevas. Quanto mais cantos obscuros, quanto mais situações duvidosas, quanto maior a incomunicação... Mais espaço para a ação dos fantasmas.

Na Vida Consagrada (como também na vida familiar ou comunitária, na política e nas relações em geral) quando os “não ditos” tomam o lugar dos “ditos”, a transparência é substituída pela obscuridade. Descortina-se o horizonte para toda a espécie diz-que-diz-que e de interpretações ambíguas. Onde faltam os devidos esclarecimentos sobram os espectros fantasmagóricos. Só a abertura ao contato livre, franco e dialógico é capaz de combater os equívocos e quiproquós da comunicação. A luz, ao penetrar no labirinto das relações humanas, dilui a presença temerosa dos fantasmas. Renova-se a aurora de cada manhã.

Pe. Alfredo J. Gonçalves

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O MEDO DO OUTRO

Monique Augras

É grande a minha alegria de, ao tomar parte neste debate, ter a oportunidade de conhecer pessoalmente o professor Jean Delumeau, que ocupa um lugar muito especial entre os historiadores e pensadores de nosso tempo.

Ele fala dos nossos grandes medos, ao longo da história do ocidente, mas também sabe falar de esperança. Como não citar a frase que, para mim, é o ponto mais alto da conclusão de Que reste-t-il du Paradis?: “Le paradis, ce sera les autres” [O paraíso, serão os outros].

Ora, há muito tempo, fomos acostumados a creditar os outros do peso do inferno – L’enfer, c’est les autres (Jean-Paul Sartre). Parece-me que Delumeau, ao “quebrar essa escrita”, como se diz, nos chama a refletir sobre a dimensão enriquecedora da alteridade. Pensar o outro como futuro da humanidade, o outro como complemento, nestes tempos dominados pelo medo do outro.

No recorte que a sua pesquisa delimitou, de 1348 a 1648, medo da fome, medo da peste, medo dos Turcos, dominam uma sociedade entregue a uma crise interna de valores. Males de origem natural combinam-se com ameaças políticas e religiosas, cujo controle se afigura impossível ou precário. A época contemporânea compartilha dessa impotência, e se afunda em pânicos semelhantes: epidemias de Aids ou de gripe aviária, tsunamis, furacões, e terremotos devastadores nos obrigam a encarar, de frente, as nossas fragilidades. E o medo antigo dos Turcos ressurge, diante do estereótipo constantemente reforçado pela mídia, do “terrorismo islâmico”.

Mil anos decorridos desde a primeira cruzada [1096] não foram suficientes para esmaecer a violência que, desde então, opõe mouros e cristãos. O estereótipo começa com a Chanson de Roland [circa 1080] que, ao relatar uma emboscada sofrida pelos exércitos de Carlos Magno, substitui os Bascos – os verdadeiros agressores – pelos Sarracenos, no provável intuito de legitimar a Reconquista na Espanha e o empreendimento das cruzadas [Bédier, 1929]. O “ciclo de Carlos Magno” tornar-se-á um poderoso instrumento de reforço do clichê, ao alimentar um sem número de publicações e folhetos populares, na França do Antigo Regime, como bem destaca Robert Mandrou [1964, p.46]: “a guerra santa é uma luta sem fim contra um inimigo inesgotável: apesar dos extermínios e das conversões, a hidra muçulmana sem cessar renasce”. Seria apenas um aspecto curioso da “história lendária”, se o tema não fosse agora retomado pelos mais poderosos países ocidentais, quase nos mesmos termos. Hoje, a hidra se chama Al Qaeda... O lado oposto, obviamente, não é melhor, e também fala em guerra santa. As mensagens de caridade e de amor, presentes nas páginas do Evangelho ou do Alcorão, são cuidadosamente esquecidas. Para termos pavor do outro, é preciso ignorar que o seu rosto é o espelho do nosso.

Mas será que não temos medo de olhar no espelho? Será que o medo do outro do lado de fora não se fundamenta no medo do outro que está dentro de nós? Isto é, daquele irredutível núcleo de alteridade que é a promessa de nossa morte, inscrita em cada uma das células do nosso corpo? Como será possível aceitar o outro exterior a nós, com toda a sua estranheza, se temos tanto receio de reconhecer a presença, em nós, deste Outro absoluto, e de nomeá-lo?

Acredito que toda a dificuldade de lidar com qualquer estranheza que seja provém, em nível existencial, da inescapável presença, intima, de nossa futura morte. Ou, melhor dizendo, de minha morte. Pois a morte dos outros, por dolorosa que seja, em nada se compara ao terror da finitude própria. Se, no espelho, o que diviso é, como dizia o poeta, “the skull beneath the skin”, a caveira por debaixo do rosto, como posso aceitar a minha imagem, ou a imagem do outro?

Em toda parte, esbarramos em imagens aterrorizantes. Nos tempos estudados por Jean Delumeau, os grandes medos se espalhavam pela disseminação de rumores, passados de boca a boca, em uma modalidade predominantemente oral. Hoje, a mídia nos agride com imagens de corpos despedaçados. Além de matar, o terror desmembra, espalha fragmentos, nos quais se receia identificar algo que ainda seja humano. Será que estamos agora inaugurando um novo regime do medo, em nível planetário?

Nenhum tema é mais próximo, para nós que moramos no Rio de Janeiro, que o da “insegurança urbana”, na qual Delumeau identifica uma das marcas da contemporaneidade. Estamos muito longe do sossego de Descartes em Amsterdam! A cidade, que nos deveria amparar, nos ameaça. Nunca a oposição entre “a casa e a rua”, detectada por Roberto Da Matta [1985], foi tão reforçada. Fechamo-nos, isolamo-nos, e, a qualquer hora que seja, evitamos sair à rua.

A rua tornou-se o símbolo de tudo aquilo que não presta, território do bandido, das “crianças de rua”, e desse objeto mítico, presente em qualquer lugar: a “bala perdida”. É o signo de uma violência sem rumo. A bala perdida é cega. Não tem mira. Mas ela é a mensageira de minha possível morte. Pior ainda: ela vem da rua, e penetra em minha casa. Fura a janela, invade o quintal, irrompe na escola. Ninguém pode escapar.

Na rua, porque, mesmo assim, é preciso sair à rua, para trabalhar, um sucedâneo de casa oferece um abrigo ilusório: é o carro, cujos vidros escurecidos se propõem impedir a visão de fora. Mas também prejudicam a visão de dentro. São dois rostos, o do automobilista e o do transeunte, mas nosso medo diz: da vítima e do bandido. Dois rostos que tentam mascarar-se, mas cada um é o espelho do outro, e se resumem a uma só máscara, a do terror.

O que fazer? Seguramente, aquilo que está ocorrendo na cidade do Rio de Janeiro não pode ser descrito como “uso sensato” do medo, definido como “saudável reação de alarme frente a um perigo”. Como aceitar o outro, com todo o medo que traz?

Não deve ser por acaso que o tema do medo quase havia sido esquecido pelos historiadores, até as pesquisas de Delumeau. E os resultados do seu trabalho evidenciam que o medo é um constante componente da história coletiva, permitindo que entendamos melhor as preocupações que hoje se afirmam, em todos os cantos do planeta. Mas, para ajudar-nos a superar esse grande medo do outro, ligado ao nosso pavor mais íntimo, é preciso meditar a preciosa mensagem de Que reste-t-il du Paradis?: o outro como promessa de convivência e completude.

Monique Augras

http://www.puc-rio.br/sobrepuc/admin/ctch/publicacoes/pdf/multitextos%2003.pdf

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