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UM SANTO NATAL E UM FELIZ ANO NOVO

UM SANTO NATAL E UM FELIZ ANO NOVO

D. Gianfranco ravasi

O Natal dito na musica e na poesia

Um vagido que atravessa o coraçao

 

Deus abandonou a sua glória e veio até mim.
Viveu entre tipos insignificantes como eu
Por mim, e em meu lugar, entregou-se
tomando sobre si vergonha e humilhação.
Perante atenções tais dou comigo a pensar:
Quem sou eu?
Se um Rei derramou o seu sangue por mim.
Quem sou eu?
Ele rezou toda a noite por mim.

(Who am I)

Não, não foi um autor espiritual quem assinou estes versos dedicados ao tema teológico da Incarnação. Talvez constitua uma surpresa, mas estes versos fazem parte do reportório de um mito (e não apenas americano) do rock’n roll, Elvis Presley, morto há mais de trinta anos, mas que continua a ser celebrado, amado e até idolatrado. O seu universo poético e musical não unia apenas transgressões exasperadas, convenções e estereótipos, protesto e felicidade rápida, mas combinava também o country branco com o rythm and blues negro, cujos temas tinham frequentemente uma espessura espiritual.

Na mesmo linha, um ensaio recente de Andrea Morandi dedicado aos U2 mostra a presença forte de referências bíblicas (sobretudo dos salmos) nos textos desta banda irlandesa. Escreve, a esse propósito, o crítico musical: “Para Bono (o famoso vocalista do grupo) o rei David é o primeiro Popstar e os Salmos os primeiríssimos Blues. O próprio Bono parece buscar uma identificação com ele. David tem uma relação difícil com Deus, os seus cantos são peças de louvor e de lamentação, precisamente como muitos salmos rock dos U2”.

Mas voltemos ao célebre rei do rock. O Cristo que ele canta é desenhado com as tintas do admirável hino Paulino da Carta aos Filipenses, um passo que oscila entre a Incarnação e a Glorificação pascal. Citemos apenas o que respeita à chamada kènosis, aquele “esvaziamento” que tem o seu abismo não só no nascimento segundo a carne, mas sobretudo na morte do Filho de Deus: “Ele, que era de condição divina, não se valeu da sua igualdade com Deus; no entanto, esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo. Tornando-se semelhante aos homens e sendo, ao manifestar-se, identificado como homem, rebaixou-se a si mesmo, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz.” (2,6-8).

Presley diz praticamente a mesma coisa, num modo mais popular e imediato, fazendo eco daquela fé na qual tinha sido iniciado na infância. Nascendo entre nós, numa província remota do império romano, Cristo abandona a sua glória para inserir-se neste nosso horizonte assinalado pela infelicidade, assumindo inteiramente a nossa fragilidade. Fez-se companheiro das nossas lágrimas e está pronto a sacrificar-se por nós. É curioso que a escritora japonesa contemporânea, Ayako Sono, colocou a canção de Presley no seu romance As mãos sujas de Deus. Ela constrói aí um quadro que representa Jesus com o rosto divino aureolado de luz, mas com as mãos cheias de terra, dura e impura, como é típico de um camponês.

Com esta evocação do mítico cantor americano, quisemos inaugurar uma viagem, em passos muito largos, no interior de um Natal “orante”. Não vamos propositadamente revisitar os textos litúrgicos conexos com o Mistério central da Encarnação (entre outros, os referidos U2 evocam no seu Magnificent o cântico de Maria, o Magnificat), nem recorrer às infindas leituras literárias do Natal, recolhidas em antologias tipo “Natal dos poetas” ou “Natal de autor”. Em vez disso, desejamos oferecer uma pequena e algo casual selecção de invocações não sentimentais ou retóricas – este é muitas vezes o risco do género natalício (dizia-o inclusive Alberto Moravia, comparando o Natal actual a uma ânfora antiga que ao ser levantada do mar vem cheia de incrustações, aquelas do consumismo e do ênfase devocional). Preferimos relatar invocações dirigidas a “Cristo, reflexo latejo, astro incarnado nas humanas trevas”, como escrevia Ungaretti na sua famosa, afectuosíssima lírica orante incluída na recolha A dor.

Partamos, então, do Seiscentos inglês com um dos maiores poetas daquela época, o autor de Paraíso perdido, John Milton. É da sua Ode à Natividade do Senhor que retiramos uma estrofe. Os leitores sentirão nesta poesia espiritual a vibração de um salmo que na liturgia cristã se usa sobretudo em chave natalícia. Deixemo-nos conduzir pelos versos do poeta britânico:

Sim, então fidelidade e justiça
retornarão aos homens,
envoltas num arco-íris.
Gloriosamente vestida,
a Bondade sentar-se-á a meio
apoiando o seu trono num relâmpago celeste
e recolhendo aos seus pés cintilantes
um tapete de nuvens.
E o céu, como para uma festa, ó Senhor,
escancarará todas as entradas
do teu grande palácio.

O fiel sente a necessidade que Jesus retorne no seu Natal com o cortejo de virtudes referido pelo poeta. Como habitantes do planeta temos necessidade de Fidelidade e de Justiça quando as injustiças e as traições parecem triunfar. É necessário que a Bondade tenha residência estável nas nossas cidades indiferentes ao gemido dos pobres. Dizíamos acima que Milton alude a um Salmo. É o 85 que canta assim: “O amor e a fidelidade vão encontrar-se. Vão beijar-se a justiça e a paz. Da terra vai brotar a verdade e a justiça descerá do céu”.

A tradição colocou no decorrer da noite o nascimento de Jesus, com base na leitura livre de uma passagem do livro da Sabedoria: “Quando um silêncio profundo envolvia todas as coisas e a noite ia a meio do seu curso, então, a tua palavra omnipotente desceu do céu e do trono real” (Sab 18,14). Só que o passo continuava e descrevia esta palavra como o anjo exterminador do Êxodo (“como um implacável guerreiro, lançou-se para o meio da terra condenada à ruína, trazendo, como espada afiada, o teu irrevogável decreto” (18,15). O contraste “treva-luz” permaneceu oportuno, contudo, para designar o Natal e não por razões cronológicas (os Evangelhos nada dizem a respeito de um nascimento nocturno de Jesus) mas por motivos espirituais, como João nos recorda no prólogo do Seu Evangelho: “A luz brilhou nas trevas e as trevas não a atravessaram” (pode-se traduzir também: “mas as trevas não a compreenderam”).

Ainda sobre este tema encontramos uma breve meditação orante de um importante filósofo irlandês do século IX, João Scoto Eriugena. Retirámo-la das suas reflexões sobre as hierarquias celestes, que se inspiravam num anónimo teólogo cristão dos séculos V-VI, conhecido também sob o pseudónimo de Dionísio Areopagita: “A luz divina aparece na noite divina, noite que começa quando se atenuam as luzes do mundo. Na luz divina o clarão da terra torna-se escuridão, o grande torna-se pequeno, o humano torna-se Deus, o ignoto se revela. A luz divina é amor da sabedoria celeste; fixando nela o olhar, Deus revela-se”. A sugestão implícita é aquela que a tradição cristã muitas vezes idealmente repete para tornar mais autêntica a liturgia: apagamos as luzes materiais, ignoramos a irradiação das luminárias, buscando que a verdadeira luz se acenda na contemplação de Cristo, luz do mundo, aquela que ilumina o caminho da nossa vida.

Às portas do Natal acendem-se as iluminações da publicidade comercial, aumenta a temperatura dos bons sentimentos, mobiliza-se a retórica de uma espiritualidade vaga que se alimenta de símbolos pastoris, presépios, abetos e neve. E contudo é possível celebrar o Natal do Senhor com ternura, também na sobriedade e no rigor que o Mistério da Encarnação exige. Ajuda-nos um poema-oração que entrou na hínica popular alemã. O título genérico é Para cantar em cada dia, o autor um poeta muito conhecido na Alemanha também por certas canções do folclore como O vinho do Reno, Matthias Claudius (1740-1815), que assinava com o pseudónimo de Asmus. Uma das suas composições líricas mais famosas, A morte e a menina, foi musicada por Franz Schubert.

Eu te agradeço e rejubilo, Senhor,
como um menino, pelo dom do Natal,
porque eu existo, eu existo!
E porque te tenho a ti, admirável rosto humano,
e tenho o sol, os montes e o mar,
a floresta e o campo posso ver,
e de noite posso caminhar
sob o exército das estrelas e da lua querida;
e porque me sinto feliz
como quando em pequeninos vínhamos
para ver o que o santo
Cristo nos tinha deixado. Amén.

Sem outras pretensões literárias, este hino recorda-nos o dom da vida que no Natal está emblematicamente representado, mas também a beleza de existir sobre este mundo rico de maravilhas. Pede a Deus que nos conserve no coração como àquele menino que sabe ainda espantar-se, como quando arregalávamos os olhos perante os presentes natalícios. Sem ênfases ou desfalecimentos, é talvez necessário reencontrar a pureza e a simplicidade dos sentimentos.

Pensemos no significado da “oração do coração” de que nos dá testemunho a tradição espiritual. Essa não é sentimentalismo oco, mas sinceridade e transparência da alma que se abre a Deus. Explica um santo monge do Sinai, o místico Gregório (1255-1347): “só a oração que brota do profundo do coração é fonte de todo o bem e irriga a alma como um jardim”. E na Regra dos Cartuxos, os monges de observância mais severa, lê-se: “habituar-te à escuta tranquila do coração, que permite a Deus penetrar-nos através de todas as vias e percursos”.

O famoso dramaturgo alemão Bertolt Brecht, não obstante o seu professo ateísmo, imaginava num seu poema uma família de pobre gente que espera o Natal. Eles esperavam a Cristo realmente, porque Brecht fazia-os dizer, “tu és verdadeiramente necessário”.

Para lá dos lugares comuns, o Natal deveria ser sobretudo a celebração de uma fraternidade actuante entre os homens. O Cristo que entra na história não é aquele glorioso do ícone e das absides, mas o filho de uma família mísera, até perseguida, semelhante a tantos clandestinos ou migrantes dos nossos dias. Pietro di Celle, nascido em torno a 1147, que foi monge beneditino e bispo e morreu em Chartres em 1183, oferece-nos num seu sermão uma simples e intensa invocação a Jesus, que vem a nós não na pompa triunfal, mas na simplicidade que não humilha e não afasta ninguém, mas atrai todos a si: “Vem Jesus, na humildade das faixas e não na grandeza, na manjedoura e não nas nuvens do céu, entre os braços de uma mãe e não sobre o trono da majestade, sobre a égua e não sobre os querubins. Vem a nosso favor e não contra nós, para salvar e não para julgar, para visitar na paz e não para condenar na ira. Se vens assim, em vez de fugirmos de ti, fugiremos para ti”. É um Deus menino que não retrai, aquele do Natal. É um Deus que se põe ao nível do último dos homens para poder acolher a todos. É um Deus que entra na nossa condição tão frágil, semelhante à erva que desponta pela manhã: à alba floresce e cresce, à tardinha desfalece e seca (Salmos, 90, 5-6). Por isso o Natal deve despojar-se do ênfase, do carácter de excepção para ser a celebração da quotidianidade e da simplicidade.

O bispo e escritor francês François de Fénelon (1651-1715) numa meditação natalícia afirmava: “Tenho necessidade da simplicidade das crianças. Enquanto o Verbo incarnado, a Palavra omnipotente do Pai cala e é só um vagido, um choro, um gemido, posso eu continuar a comprazer-me nas elucubrações do meu espírito e a sofrer se este mundo não tem uma ideia suficiente alta das minhas capacidades? Escolhi permanecer no silêncio e na obscuridade para unir-me à impotência e aos vagidos de Jesus Menino”.

Concluindo esta pequena e livre antologia de textos orantes natalícios, queria referir as palavras de um escritor mais próximo dos nossos dias, que eu conheci em vida e de quem celebrei o adeus fúnebre em Milão no ano de 2007, poucos dias antes que eu trocasse aquela cidade por Roma. Trata-se de Raffaele Crovi, nascido na província milanesa em 1934 e radicado na metrópole Lombarda onde foi também uma presença activa no âmbito editorial. Ele tem uma recolha poética intitulada precisamente A utopia de Natal (1982) e dessa se retiram estes versos que têm o sabor antigo de uma litania, cujas invocações contudo são modernas e próximas de nós:

Ó Natal, cometa dos desejos,
ó Natal, abrigo de sonhos e evocações,
ó Natal, começo de um poema,
tu nasces e renasces, ó Cristo diverso.
És pobreza e caridade,
és lei e transgressão,
és força e humildade,
realidade e imaginação.
No mundo destinado a um fim
tu soubeste unir
o morrer e o porvir.

Sabemos bem como é fácil “embrulhar” o Natal num papel de oferta com laçarotes e brilhos. É certo que esta data é também um “abrigo dos sonhos” e de desejos, de fantasia e de ternura. Mas o coração deve bater noutra direcção. Conduz-nos onde há pobreza, chama-nos de novo à liberdade, compromete-nos, pede-nos empenhamento, solicita-nos humildade, exige coragem, convida-nos ao céu, mas responsabiliza-nos por esta terra, oferece-nos esperança, mas impõe-nos fidelidade. Nesta série de polaridades corre o fio luminoso do Natal. Esse, porém, está suspenso entre dois extremos: Belém e o Calvário, o nascer e o morrer de Cristo que vem até nós tornando-se nosso semelhante. O seu nascer é para nós, porém, um renascer e o seu morrer um ressurgir. Por isso as Igrejas do Oriente consideram o Natal uma festa pascal. Não é apenas a doce memória do Nascimento de um Menino, é a celebração do renascimento da humanidade que “geme interiormente esperando a adopção filial e a redenção do nosso corpo” (Romanos, 8, 23).

Detenhamo-nos neste nosso itinerário pelo vasto horizonte das invocações dirigidas ao Menino de Belém. Quem quiser sair do género por nós adoptado e entrar na infindável literatura “natalícia” deverá apenas confrontar-se com o embaraço da escolha. Permitamo-nos, contudo, um conselho entre os mil possíveis: aquele de retomar duas deliciosas e intensas narrativas. A primeira é o belíssimo e popular conto Christmas Carol (“Canto de Natal”) publicado por Charles Dickens em 1843, e recentemente reproposto em versão cinematográfica pela Disney, sob realização de Robert Zemeckis, onde se conta a emocionante conversão “natalícia” do velho avarento Scrooge; o outro é o menos conhecido mas igualmente intenso O dom dos Magos do americano O. Henry, pseudónimo de William S. Porter (1862-1910), breve história de um casal pobre que trocam um presente “surpreendentemente” inútil, mas extraordinariamente emblemático do seu verdadeiro amor. O Natal não é uma metáfora espiritual, mas um sinal eficaz de graça e de amor! O filósofo Ludwig Wittgenstein nos seus Cadernos anotava: “O cristianismo não é uma doutrina, não é uma teoria daquilo que foi e daquilo que será a alma humana, mas é a descrição de um acontecimento real na vida do homem”. Um evento que revolve e fecunda o terreno árido da história.

D. Gianfranco Ravasi

Presidente do Conselho Pontifício da Cultura

Osservatore Romano, 25.12.2009

 

 

http://www.snpcultura.org/tvb_um_vagido_que_atravessa_coracao.html

UM SANTO E FELIZ NATAL

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