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FP.pt 3/2013 (1)

Espaço para Deus.

Henri Nouwen.

A vida espiritual sem disciplina é impossível. Disciplina é o outro lado do discipulado. A prática de uma disciplina espiritual nos torna mais sensíveis à voz tranquila e suave de Deus.

 

INTRODUÇÃO

A vida espiritual é um dom. É o dom do Espírito Santo, que nos introduz no reino do amor de Deus. Mas dizer que ser introduzido no reino de Deus é um dom divino não quer dizer que esperamos passivamente até que o dom se nos ofereça. Jesus nos fala para buscar o reino. Buscar alguma coisa envolve não somente aspiração séria mas também determinação forte. A vida espiritual requer esforço humano. As forças que sempre nos puxam de volta a uma vida cheia de preocupação não são fáceis de se vencer. "Quão dificilmente", Jesus exclama, "entrarão no reino de Deus ..." (Mc 10:23). E para nos convencer da necessidade de trabalho duro, ele diz: "Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me" (Mt 16:24)

Neste ponto tocamos a questão de disciplina na vida espiritual. A vida espiritual sem disciplina é impossível. Disciplina é o outro lado do discipulado. A prática de uma disciplina espiritual nos torna mais sensíveis à voz tranquila e suave de Deus. O profeta Elias não encontrou Deus no vento forte nem no terremoto e nem no fogo, mas no cicio tranquilo (1 Rs 19:11-13). Através da prática de uma disciplina espiritual tornamo-nos sensíveis à essa voz tranquila e prontos a responder quando a ouvimos.

Em relação a tudo que eu disse sobre nossas vidas preocupadas e sobrecarregaras é claro que geralmente estamos envolvidos, interior e exterior que fica realmente difícil ouvir a voz de Deus quando Ele nos está falando. Muitas vezes tornamo-nos surdos, incapazes de saber quando Deus nos chama, incapazes de entender em que direção nos chama. Desta forma nossas vidas se tornam um absurdo. Na palavra absurdo encontramos a palavra latina surdus, que significa "surdo". A vida espiritual requer disciplina porque precisamos aprender a ouvir a Deus. que constantemente fala mas a quem raramente ouvimos. Porém, quando aprendemos a ouvir, nossas vidas se tornam vidas obedientes. A palavra obediente vem da palavra latina obaudire, que significa "ouvir". É necessário ter uma disciplina espiritual se quisermos mudar lentamente de uma vida absurda para uma vida obediente, de uma vida cheia de preocupações agitadas para uma vida em que há espaço livre no nosso interior para ouvir nosso Deus e seguir sua orientação. A vida de Jesus foi uma vida de obediência. Estava sempre escutando o Pai, sempre atento a sua voz, sempre alerta as suas direções. Jesus era "todo ouvidos". Isto é a verdadeira oração: ser todo ouvido para Deus. O cerne de toda oração é realmente ouvir, permanecer obedientemente na presença de Deus.

Uma disciplina espiritual, portanto, é um esforço concentrado para criar um pouco de espaço interior e exterior em nossas vidas, onde esta obediência pode ser praticada. Através de uma disciplina espiritual impedimos que o mundo preencha nossas vidas de tal forma que não haja mas lugar para ouvir. Uma disciplina espiritual nos liberta para orar, ou melhor dizendo, liberta o Espírito de Deus para orar em nós.

Vou apresentar agora duas disciplinas pelas quais podemos "buscar o reino". Podem ser consideradas como disciplinas de oração. São a disciplina de solidão e a disciplina de comunidade.

SOLIDÃO

Sem solidão é virtualmente impossível viver uma vida espiritual. Solidão começa com um tempo e lugar para Deus e somente para ele. Se realmente cremos que Deus não somente existe mas também está ativamente presente em nossas vidas - curando, ensinando, e dirigindo - precisamos reservar um tempo e um espaço para lhe dar nossa atenção ininterrupta. Jesus disse: "Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto, e fechada a porta orarás a teu Pai que está em secreto..." (Mt 6:6).

Produzir um elemento de solidão em nossas vidas é uma das disciplinas mais necessárias mas também mais difíceis. Mesmo que tenhamos um desejo profundo por solidão verdadeira, também experimentamos uma certa apreensão quando nos aproximamos deste lugar e tempo solitários. Uma vez que estamos sós, sem pessoas com quem conversar, livros para ler, TV para assistir, ou telefonemas para fazer, um caos interior se revela em nós. Este caos pode ser tão perturbador e tão confuso que não vemos a hora de nos ocuparmos novamente. Portanto, entrar num quarto à parte e fechar a porta, não significa que imediatamente excluímos todas nossas dúvidas interiores, ansiedades, medos, maus pensamentos, conflitos insolúveis, sentimentos de ira, desejos impulsivos. Ao contrário, quando nos afastamos de nossas distrações exteriores, frequentemente descobrimos que nossas distrações interiores se manifestam a nós com toda a sua força. Muitas vezes usamos as distrações exteriores para nos proteger dos barulhos interiores. Desta forma não é de se admirar que tenhamos dificuldade para ficar sozinhos. A confrontação com nossos conflitos interiores pode ser dolorosa demais para ser suportada.

Isto torna a disciplina de solidão ainda maís importante. Solidão não é uma resposta espontânea a uma vida ocupada e preocupada. Há razões de sobra para não ficar sozinho. Portanto, devemos começar planejando cuidadosamente um tempo de solidão. Cinco ou dez minutos por dia pode ser o máximo que toleramos. Talvez estejamos prontos para uma hora todo o dia, uma tarde toda semana, um dia todo mês, ou uma semana todo ano. A quantidade de tempo vai variar para cada pessoa de acordo com o temperamento, idade, trabalho, estilo de vida e maturidade. Mas não estamos levando a vida espiritual a sério se não reservamos algum tempo para estar com Deus e ouvi-lo. Talvez tenhamos que escrever isto em preto e branco em nossa agenda diária para que mais ninguém possa nos roubar este período de tempo. Então poderemos dizer aos nossos amigos, vizinhos, alunos, fregueses, clientes, ou pacientes: "Desculpe, mas já fiz um compromisso neste horário que não pode ser mudado".

Uma vez que nos comprometemos a gastar tempo em solidão, desenvolvemos uma sensibilidade à voz de Deus em nós. No início, durante os primeiros dias, semanas, ou até meses, podemos ter o sentimento de que estamos simplesmente perdendo tempo. Tempo em solidão no início pode parecer nada mais que um tempo no qual somos bombardeados por milhares de pensamentos e sentimentos que emergem das áreas escondidas de nossa mente. Um dos mais antigos escritores cristãos descreve o primeiro estágio de oração solitária como a experiência de um homem que, depois de viver anos com as portas abertas, de repente decidiu fechá-las. Os visitantes que costumavam vir e entrar em sua casa começam a bater nas suas portas, indagando porque não se lhes permite a entrada. Somente quando compreendem que não são bem-vindos, aos poucos param de vir. Esta é a experiência de alguém que decide entrar em solidão depois de uma vida sem muita disciplina espiritual. No início, as muitas distrações continuam se apresentando. Depois, à medida que recebem menos e menos atenção, lentamente se retiram.

É claro que o importante é a fidelidade à disciplina. No início, solidão parece tão contrária aos nossos desejos que somos constantemente tentados a nos esquivar disso. Uma maneira de se esquivar é divagar na mente ou simplesmente cair no sono. Mas quando nos dedicamos à nossa disciplina, na convicção que Deus está conosco mesmo quando ainda não o escutamos, lentamente descobrimos que não queremos perder nosso tempo à sós com Deus. Apesar de não experimentarmos muita satisfação em nossa solidão, compreendemos que um dia sem solidão é menos "espiritual" do que um dia com solidão.

Intuitivamente, compreendemos que é importante gastar tempo em solidão. Até começamos a aguardar com expectativa este estranho período de inutilidade. Este desejo por solidão muitas vezes é o primeiro sinal de oração, a primeira indicação de que a presença do Espírito Deus não é despercebida. Quando nos esvaziamos de nossas muitas preocupações conseguimos entender não somente com nossa mente mas também com nosso coração que nunca estivemos realmente sós, que o Espírito de Deus estava sempre conosco. Desta forma conseguimos compreender o que Paulo escreve aos Romanos: "... a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança. Ora, a esperança não confunde, porque o amor de Deus é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado" (Rm 5:3-5). Em solidão, chegamos a conhecer o Espírito que já nos foi outorgado. As dores e as lutas que encontramos em nossa solidão se tornam desta forma o caminho de esperança, porque nossa esperança não é baseada em alguma coisa que acontecerá depois que nossos sofrimentos terminarem, mas na presença real do Espírito de Deus que nos cura no meio destes sofrimentos. A disciplina de solidão nos permite gradativamente entrar em contato com a presença esperançosa de Deus em nossas vidas, e também nos permite experimentar mesmo agora as primícias de gozo e paz que pertencem ao novo céu e à nova terra.

A disciplina de solidão, como tenho descrito aqui, é uma das mais poderosas disciplinas para desenvolver uma vida de oração. É um caminho simples, embora difícil, para nos libertar da escravidão de nossas ocupações e preocupações e começar a ouvir a voz que faz novas todas as coisas.

Deixe-me dar uma descrição mais concreta de como a disciplina de solidão pode ser praticada. É uma grande vantagem ter um quarto ou um canto de quarto ou um quartinho! - reservado à disciplina de solidão. Tal lugar "arrumadinho" ajuda-nos a buscar o reino sem gastar tempo com preparativos. Algumas pessoas gostam de decorar este lugar, mas o importante é que o lugar de solidão seja um lugar simples e ordenado. Lá ficamos na presença do Senhor. "Nossa tentação é fazer alguma coisa útil: ler algo estimulante, pensar sobre uma coisa interessante, ou experimentar algo extraordinário. Mas nosso momento de solidão é exatamente um momento em que queremos estar na presença de nosso Senhor de mãos vazias, nus, vulneráveis, inúteis, sem nada para apresentar, provar, ou defender. É assim que, lentamente, aprendemos a ouvir a voz tranquila de Deus. Mas o que fazer com nossas muitas distrações? Devemos lutar contra estas distrações e esperar que desta forma nos tornemos mais atentos à voz de Deus? Isto não parece ser a maneira de se entrar em oração. Criar um espaço vazio onde podemos ouvir o Espírito de Deus não é fácil quando colocamos toda nossa energia na luta contra as distrações. Se confrontamos as distrações de maneira tão direta, acabamos lhes dedicando mais atenção que merecem. Temos porém, as palavras das Escrituras para dedicar nossa atenção.

Um salmo, uma parábola, uma hístória bíblica, uma declaração de Jesus, ou uma palavra de Paulo, Pedro, Tiago, Judas ou João, pode nos ajudar a focalizar nossa atenção à presença de Deus. Desta forma impedimos "todas estas coisas" de ter poder sobre nós. Quando colocamos as palavras das Escrituras no centro de nossa solidão, tais palavras seja uma pequena expressão, umas poucas sentenças ou um texto mais longo - podem funcionar com ponto ao qual retornamos quando nos desviamos para diferentes direções. Formam um ancoradouro seguro num mar tempestuoso. No fim de tal período na presença tranquila de Deus podemos, através de oração intercessora, levar todas as pessoas que fazem parte de nossa vida, tanto amigos como também inimigos à sua presença restauradoura. E por que não concluir com as palavras que o próprio Jesus nos ensinou: O Pai Nosso.

Isto é somente uma das formas especificas nas quais a disciplina de solidão pode ser praticada. Infinitas variações são possíveis. Passeios no campo, a repetição de orações curtas tais como a oração de Jesus, formas simples de canto-chãos, certos movimentos ou posturas - estes e muitos outros elementos podem se tornar uma parte útil da disciplina de solidão. Mas temos de decidir que forma especifica desta disciplina melhor nos convém, e na qual podemos perseverar. É melhor ter uma prática diária de dez minutos em solidão do que ter uma hora completa de vez em quando. É melhor se tornar familiar com uma postura do que ficar sempre experimentando novas posturas. Simplicidade e regularidade são os melhores guias para achar nosso caminho. Permitem-nos fazer da disciplina de solidão outra parte da nossa vida diária tanto quanto comer ou dormir. Quando isto acontece, nossas preocupações barulhentas perderão lentamente seu poder sobre nós e a atividade renovadora do Espírito de Deus aos poucos se manifestará.

Embora a disciplina de solidão exija que separemos para isso tempo e espaço, no final de tudo o importante é que nossos corações se tornem aposentos tranquilos e que Deus possa habitar, onde quer que vamos e o que quer que façamos. Quanto mais nos treinarmos a gastar tempo com Deus e unica­mente com ele, maís descobriremos que em todo o tempo e em todo o lugar Deus está conosco. Então poderemos reconhecê-lo mesmo no meio de uma vida atarefada e ativa. Depois que a solidão de tempo e espaço se torna solidão de coração, nunca haveremos de deixar aquela solidão. Poderemos viver a vida espiritual de qualquer lugar e em qualquer tempo. Desta forma a disciplina da solidão capacita-nos a viver uma vida ativa no mundo, enquanto permanecemos constantemente na presença do Deus vivo.

COMUNIDADE

A disciplina de solidão não se mantém sozinha. Está intimamente relacionada com a disciplina de comunidade. Comunidade como disciplina é o esforço de criar um espaço livre e vazio entre pessoas, onde juntos possamos praticar verdadeira obediência. Através da disciplina de comunidade nos prevenimos de nos apegar um ao outro com sentimentos de medo e isolamento, e criamos um espaço livre para ouvir a voz libertadora de Deus.

Pode parecer estranho falar de comunidade como disciplina mas sem disciplina comunidade se torna uma palavra "mole", referindo-se mais a um lugar seguro, aconchegante e exclusivo do que ao espaço onde se pode receber vida nova e desenvolvê-la à sua plenitude. Em qualquer lugar onde se acha verdadeira comunidade, disciplina é decisivo. É decisivo não somente nas muitas velhas e novas formas de vida em comum, mas também nos relacionamentos sustentadores de amizade, casamento, e família. Criar espaço para Deus entre nós requer o constante reconhecimento do Espírito de Deus um no outro. Depois de ter conhecido o Espírito vivificante de Deus no centro de nossa solidão, tornando-nos capazes desta forma a afirmar nossa verdadeira identidade, passamos a ver também o mesmo Espírito vivificante falando-nos através de nossos companheiros humanos. E quando chegamos a reconhecer o Espírito vivificante de Deus como, a fonte de nossa vida em conjunto, mais facilmente também ouviremos sua voz em nossa solidão.

Amizade, casamento família, vida religiosa e toda outra forma de comunidade é solidão saudando solidão, espírito falando a espírito, coração chamando coração. É o grato reconhecimento do chamado de Deus para compartilhar a vida juntos e o alegre oferecimento de um espaço hospitaleiro onde o poder recriador do Espírito de Deus pode se manifestar. Desta maneira todas as formas de vida em conjunto podem se tornar maneiras de manifestar um ao outro a presença real de Deus em nosso meio.

Comunidade não tem muito a ver com compatibilidade mútua. Semelhanças em "background" educacional, constituição psicológica, ou posição social, podem nos atrair um ao outro, mas nunca podem ser a base para comunidade. Comunidade é fundamentada em Deus, que nos chama a viver juntos, e não na atratividade mútua das pessoas. Há muitos grupos que se constituíram a fim de proteger seus próprios interesses, defender sua própria posição, ou promover suas próprias causas, mas nenhum destes é uma comunidade cristã. Ao invés de romper os muros de medo e criar novo espaço para Deus, fecham-se a intrusos reais ou imaginários. O ministério da comunidade é exatamente seu envolvimento de todas as pessoas, quaisquer que sejam suas diferenças individuais, permitindo-lhes viver juntas como irmãos e irmãs de Cristo e filhos e filhas do seu Pai celeste.

Eu gostaria de descrever uma forma concreta desta disciplina de comunidade. É a prática de ouvir juntos. Em nosso mundo prolixo geralmente gastamos nosso tempo juntos falando. Sentimo-nos mais confortáveis compartilhando experiências, discutindo assuntos interessantes, ou argumentando problemas sociais. É através de uma troca verbal muito ativa que tentamos nos descobrir um ao outro. Mas muitas vezes descobrimos que as palavras funcionam mais como muros do que como portões, mais como formas de manter a distância do que para se aproximar. Muitas vezes - até contra nossa vontade - percebemo-nos competindo mutuamente. Tentamos provar um ao outro que merecemos atenção, que o que temos para mostrar nos torna especiais- A disciplina de comunidade ajuda-nos a ficar em silêncio juntos. Este silêncio disciplinado não é um silêncio embaraçador, mas um silêncio no qual prestamos atenção juntos ao Senhor que nos chamou juntos. Desta forma chegamos a nos conhecer mutuamente não como pessoas que se apegam ansiosamente a sua auto-instituída identidade, mas como pessoas que são amadas pelo mesmo Deus de uma forma muito íntima e singular.

Aqui - como ocorre com a disciplina de solidão - muitas vezes são as palavras das Escrituras que podem nos levar a este silêncio comunal. A fé, como Paulo diz, vem pelo ouvir. Temos que ouvir a palavra um do outro. Quando nos reunimos de diferentes contextos geográficos, históricos, psicológicos, e religiosos, ouvir a mesma palavra falada por pessoas diferentes pode criar em nós uma abertura e vulnerabilidade comuns que nos permitem reconhecer que estamos seguros juntos naquela palavra. Desta forma podemos descobrir nossa verdadeira identidade como comunidade, desta forma podemos experimentar o que significa ser chamados juntos, e desta forma podemos reconhecer que o mesmo Senhor que descobrimos em nossa solidão também fala na solidão do nosso próximo, seja qual for sua linguagem, denominação, ou caráter. Através de ouvir juntos a palavra de Deus, um silêncio realmente criativo pode se desenvolver, Este silêncio é um silêncio impregnado com a presença amorosa de Deus. Desta forma ouvir juntos a palavra de Deus pode libertar-nos de nossa competição e rivalidade e permitir-nos reconhecer nossa verdadeira identidade como filhos e filhas do mesmo Pai amoroso, irmãos e irmãs do nosso Senhor Jesus Cristo, e conseqüentemente um do outro.

Este exemplo de disciplina de comunidade é um dentre muitos. Celebrar juntos, trabalhar juntos, brincar juntos, todas estas são maneiras pelas quais a disciplina de comunidade pode ser praticada. Mas seja qual for seu tipo ou forma concreta, a disciplina de comunidade sempre leva-nos além dos limites de raça, sexo, nacionalidade, caráter, ou idade, e sempre nos revela quem realmente somos diante de Deus e do nosso próximo.

Através da disciplina de comunidade nos tornamos pessoas; isto é, pessoas que estão soando uma à outra (a palavra latina personare significa "soar") uma verdade, uma beleza, e um amor que é maior, mais profundo e mais rico do que nós mesmos podemos compreender individualmente. Em comunidade verdadeira somos janelas oferecendo constantemente um ao outro novos panoramas do mistério da presença de Deus em nossas vidas. Desta forma a disciplina de comunidade é uma verdadeira disciplina de oração. Faz-nos alertas à presença do Espírito que clama "Aba", Pai, entre nós, orando assim do centro de nossa vida em comum. Comunidade desta forma é obediência praticada juntos. A questão não é simplesmente. "Para onde Deus me leva como um indivíduo tentando fazer sua vontade?" Mais básica e mais significante é a questão, "Para onde Deus nos leva como um povo?" Esta questão requer que prestemos cuidadosa atenção à direção de Deus em nossa vida coletiva e que juntos procuremos uma resposta criativa. Aqui podemos ver como oração e ação são realmente unidas, porque o que quer que façamos como comunidade somente pode ser um ato de verdadeira obediência quando é uma resposta àquilo que ouvimos da voz de Deus em nosso meio.

Finalmente, temos de lembrar que comunidade, como solidão, é principalmente uma qualidade do coração. Embora seja verdade que nunca conheceremos o que é comunidade se não nos unirmos em um lugar, comunidade não significa necessariamente estar fisicamente juntos. Podemos muito bem viver em comunidade mesmo estando fisicamente sozinhos. Em tal situação podemos agir livremente, falar honestamente, e sofrer pacientemente por causa do vínculo íntimo de amor que nos une com outros, mesmo quando tempo e espaço nos separam deles. A comunidade de amor não só se estende além dos limites de países e continentes mas também além dos limites de décadas e séculos. Não somente a consciência daqueles que estão longe mas também a memória dos que viveram no passado podem levar-nos a uma comunidade que nos cura, sustenta e dirige. O espaço para Deus na comunidade transcende todos os limites de tempo e lugar.

Desta forma a disciplina de comunidade libera-nos a ir aonde quer que o Espírito nos guie, mesmo a lugares onde preferiríamos não ir. Isto é a verdadeira experiência pentecostal. Quando o Espírito desceu sobre os discípulos que estavam trancados juntos com medo, eles foram libertos para sair do seu quarto fechado para o mundo. Enquanto estavam reunidos com medo ainda não se constituíam uma comunidade. Mas quando receberam o Espírito, tornaram-se um corpo de pessoas livres que podiam permanecer em comunhão um com o outro mesmo quando estavam tão longe um do outro quanto Roma está de Jerusalém. Desta forma, quando é o Espírito de Deus e não o medo que nos une em comunidade, nenhuma distância de tempo ou lugar nos pode separar.

CONCLUSÃO

Através da disciplina de solidão descobrimos espaço para Deus no mais íntimo de nosso ser. Através da disciplina de comunidade descobrimos um lugar para Deus em nossa vida em conjunto. Ambas as disciplinas se complementam, exatamente porque o espaço dentro de nós e o espaço entre nós são o mesmo espaço.

É neste espaço divino que o Espírito de Deus ora em nós. Oração é primeira e principalmente a presença ativa do Espírito Santo em nossa vida pessoal, e comunitária. Através das disciplinas de solidão e comunidade tentamos remover - lentamente, mas persistentemente - os muitos obstáculos que nos impedem de ouvir a voz de Deus dentro de nós. Deus nos fala não somente de vez em quando mas sempre. Dia e noite, durante o trabalho e durante o lazer, na alegria e na dor, o Espírito de Deus está ativamente presente em nós. Nossa tarefa é permitir que esta presença se torne real para nós em tudo que fazemos, dizemos ou pensamos. Solidão e comunidade são as disciplinas pelas quais o espaço se torna livre para percebermos a presença do Espírito de Deus e respondermos destemidamente e generosamente. Quando ouvirmos a voz de Deus em nossa solidão também a ouviremos em nossa vida juntos. Quando ouvirmos a Deus em nossos companheiros humanos, também o ouviremos quando estivermos com ele sozinhos. Quer em solidão quer em comunidade, quer sozinhos quer com outros, somos chamados para viver vidas obedientes isto é, vidas de oração incessante - "incessante" não por causa das muitas orações que fazemos, mas por causa de nossa sensibilidade à oração incessante do Espírito de Deus dentro de nós e entre nós.

Henri Nouwen

Espaço para Deus. Cap. 3: Buscai o Reino

http://www.celebrandodeus.com/estudos/estudos.asp?id=25

 

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